terça-feira, 6 de novembro de 2018

EU FUI PRO SAMBA







EU FUI PRO SAMBA

Caía uma neblina trajando luto
Ao anoitecer
Em cima do viaduto
que passa em frente ao Teatro de nome Nelson,
sim, aquele, Rodrigues, que disse que qualquer indivíduo é mais importante que a Via Láctea.
Lá dentro, só havia bêbad@s e louc@s a nos equilibrar entre lágrimas e risos, por causa de dois artistas mais bêbados e mais loucos que todos... fazendo mil e tantas irreverências geniais às coisas do Brasil. Os dedos acrobatas, de Bosco e Holanda, faziam peripécias musicais inacreditáveis nas cordas firmes de um violão e de um bandolim.
 A Voz de João vinha de muitos carnavais, muitos madrigais, muitos futuros para trás e para frente.
Alguém lembrou Carlitos? Elis? Betinho? Corsários? Dragões do Mar? Baías e Bahias, Guanabaras, Mouros e Polacas? Escolas de Samba? Histórias do Samba?
Hamilton! E saber que és nosso...
Humildemente peço desculpas: não escapei da reza.
Alguém viu a praga de corpos lá estendidos no chão? São muitos e têm nomes. Um nome lembra todos e cada nome: 
                                                MARIELLE: Presente!

As Asas de uma esperança equilibrista que nos deram esses artistas naquela noite de Domingo, nos fizeram sonhar com a volta de tantos irmãos e irmãs, pais e filhos, primos e tias, amigos, parentes e aderentes...
É por essa e outras que o show de todo artista tem que continuar.

domingo, 25 de dezembro de 2016

A Ciranda de um beijo


A CIRANDA DE UM BEIJO


Numa ciro

LA DANSE
Matisse


Pedi um beijo só no pensamento
Quanto mais pensava
Só beijava o tempo
Só me admirava
Tempo Tempo Tempo


Sagração da Primarera
Pina Bausch


O tempo estava a brincar comigo
Quando eu brincava
O tempo se escondia
Tempo de alegria
Quero dar risada




Beijei teus lábios no meu sentimento
Quanto mais sentia
Mais me acostumava
Mais eu te beijava
Só no sentimento



Ricardo Woo

quarta-feira, 15 de julho de 2015

CARTA DE UMA LEITORA


Adversativas admitem Adversidades



Encontrada na internet


A coluna do Segundo Caderno, O Globo, sexta-feira, 16.1.2015, foi nomeada pelo seu autor de “AS ADVERSATIVAS”. Não apenas reconheci meus pensamentos através das reflexões desenvolvidas no texto… também senti o impulso de escrever junto, apropriar-me da temática escolhida por Arthur Dapieve e soltar as palavras. A brecha que encontrei para deixar fluir minhas ideias e reflexões sobre o tema da coluna foi escrever uma carta. Demorô. Nunca enviei nenhuma carta para revistas ou jornais. Contive-me, inédita, como leitora ou fã até esta data. Tenho muitas cartas engavetadas e arquivadas.

Mandei a carta por meio do correio eletrônico. NO ENTANTO só a enviei no sábado. Dormi com a carta guardada  MAS acordei desduvidosa.   












Resumi o texto no formato de uma missiva, embora Sílvia, minha amada, ter dito, mais ou menos assim, que isso não é tamanho de carta para se enviar a um colunista. Acho que talvez neste caso ele nem vai ler, dada a quantidade de correspondências que devem povoar sua caixa virtual. MAS Lacan vem em meu Socorro e diz: "c’est qu’une lettre arrive toujours à destination" ou “Uma carta sempre chega ao seu destino”. Escritos, pag. 45. 

Outro destino ao qual estou dando o meu texto é postar a carta para os supostos leitores deste blog:

Prezado Arthur Dapieve

Leitora de sua coluna, senti-me cutucada pelas adversativas que surgiram em sua reflexão de hoje sobre as adversidades causadas pelos atos criminosos de quem se sente no direito de cometê-los, baseado em “verdades” religiosas, ideológicas ou coisa que os valha. 

Lembrei-me que participei de um seminário – acadêmico mesclado com militância - há mais de 15 anos sobre preconceito e racismo. Um conferencista (desculpe, perdi as referências do autor e da tese) falou da sua pesquisa em linguística exatamente sobre o emprego das conjunções adversativas quando as pessoas, mesmo sem se darem conta, se referem aos afrodescendentes. Um amigo negro (entre os raríssimos que moravam em Ipanema e frequentavam escola na Zona Sul) refletindo sobre isto, compreendeu porque, quando era criança, as mães (todas brancas) dos seus amigos se admiravam tanto “por este menino ser tão educado”. O subtendido: “É negro mas… não parece”. Os exemplos das mais variadas formas com que as adversativas são usadas no caso do racismo são surpreendentes.




Foi em 2004? Aquela campanha “Onde você guarda o seu racismo” nos levou a desvelar na fala e nos costumes corriqueiros contradições inesperadas em relação ao racismo, aos preconceitos em geral, às manipulações de políticas moralistas.
Retomando a sua citação de George Orwell, “um Estado totalitário é na realidade uma teocracia”, lembrei-me do episódio que envolveu o cantor da nossa MPB que acreditou no epíteto de rei que seus fãs (súditos?) lhe deram. Do alto do seu trono, mandou o seguinte telegrama majestático para o presidente José Sarnei:

“Cumprimento Vossa Excelência por impedir a exibição do filme Je Vous Salue Marie, que não é obra de arte ou expressão cultural que mereça a liberdade de atingir a tradição religiosa de nosso povo e o sentimento cristão da humanidade. Deus abençoe Vossa Excelência. 
Roberto Carlos Braga.''

Não falou, MAS mandou a liberdade de expressão, a democracia recém inaugurada, o direito dos ateus e laicos de produzirem seus trabalhos de acordo com sua posição fora dos cânones religiosos, mandou tudo pro inferno. INFERNO? "De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar"? Se... tudo não estiver como eu quero? Não é assim que pensa um rei?

Quem leu aquele telegrama na época, não se surpreendeu quando o rei julgou a biografia "Roberto Carlos em detalhes", escrita pelo historiador Paulo Cesar de Araujo, um crime de lesa majestade. No seu livro O Réu e o Rei, o pesquisador conta em detalhes as adversidades pelas quais passou com o processo na esfera criminal impetrado pelo seu biografado, o qual um dia já foi, que ironia, ídolo da “jovem guarda”. Não imaginamos na época que a guarda iria se deslocar de sua bela referência à vanguarda, para servir de guarda aos "bons" costumes e à moral religiosa. O processo contra o escritor e a editora que culminou na proibição do livro não se constitui como um exemplo do cruzamento do culto à personalidade com o poder teocrático?


Um abraço,

Numa Ciro





Dias depois:

E não é que Arthur Dapieve gentilmente me respondeu?




MARCELO E O GOL AMIGO DO FACE NA CARA DO BOOK


Faces do Brasil

ou 

O Brasil Mostra a Sua Cara

                                 
 Para o futebolista Vinícius Braga Lucas
meu neto


 Time de Futebol
Zé Caboclo
Auto do Moura/Caruaru, PE




Grafiteiro Paulo Ito



Mamãe eu quero
Mamãe eu quero
Mamãe eu quero mamar

       Vicente Paiva Ribeiro



Post da internet
Anônimo
     
Ô coisinha tão bonitinha do pai
Ô coisinha tão bonitinha do pai

   Jorge Aragão, Almir Guineto e Luiz Carlos



Post da internet
Anônimo



O jogo do Brasil com a Croácia, na abertura da Copa do Mundo, 2014, foi uma oportunidade única para apreciarmos o nosso time a nos oferecer um autorretrato desse “país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza”. Mas não vimos apenas este perfil. Mil faces e milhões de máscaras nos mostraram a todo instante a nossa impotência para definirmos, com a exatidão que pretendemos, o que é esse pau-país chamado orgulhosamente de Brasil, mesmo quando o tom vem carregado de ódio.


Tamanduá Bandeira
Paloma Amado



Ontem, no Estádio de Itaquera, em São Paulo, nossos jogadores apresentaram uma performance singular: o jogo se movimentou de acordo com os últimos acontecimentos do país e mimetizou as anedotas e os clichês mais contundentes com os quais nos armamos para flecharmos o coração do ser brasileiro.


Post da internet
Anônimo



O movimento do jogo tinha a cadência do vai-não-vai, esperaí, desculpe o atraso, eu chego lá, pode deixar, num se avexe não, que que é isso companheiro?  

As indecisões de determinados passes e as perdas de bola deixavam transparecer o medo de estarmos inaugurando aquela COPA que uma grande parcela dos nativos prometia que não haveria de ter.


Post do face
por André Vallias



Os jogadores retumbaram, no segundo canto à capela, o povo heróico bradar às margens plácidas do Ipiranga. Acredito: quem um dia ouviu um canarinho cantar jamais ficará surdo aos clamores das multidões que tomaram ruas, interceptaram estradas, quebraram vidraças, enfrentaram tropas de polícia armada, ocasião em que muitos manifestantes foram presos, feridos, e alguns até foram mortos.


Post da internet
Anônimo



Os jogadores de ambos os times, rapazes de última geração, expondo a mais exuberantes formas físicas, eram verdadeiros espártacus re-inventados, bem treinados na arte de matar o outro simbolicamente, brincando com uma bola. Essa é a melhor parte: o esporte é um dos exemplos mais vigorosos sobre a simbolização do instinto de morte, sobre a capacidade sublimatória de quem joga com o real no campo das artes.


Post do face


Os jogadores brasileiros entraram no campo em fila, mão no ombro um do outro, formando uma centopeia: todos os pés pertenceriam, a partir daquele instante, a um só corpo.


Post da internet
Anônimo


De repente me vi com uma rolleiflex imaginária a tirar instantâneos dos jogadores em lances que me davam interessantes autorretratos de nós brasileiros.




Post do Face



Cumprindo os deveres desse tal brasileiro, conterrâneo de Deus, que se diz hospitaleiro, que dá tudo o que tem ao estrangeiro, que habita um país de fontes inesgotáveis onde se plantando tudo dá… O gol de Marcelo foi o presente de boas vindas do brasileiro ao time que hospedamos. Apaguei o "contra" do gol de Marcelo e tirei o retrato fidedigno dessa imagem que fazemos de nós. Foi o gol mais lindo.


Post da internet
Anônimo 



Reparemos: Desde o momento do gol que Marcelo deu de pés beijados ao time da Croácia até este momento em que escrevo, não vi, nem ouvi, nem li nada que desabonasse o Marcelo. Incrível. 

Revejam o flagrante de tranquilidade no semblante do jogador pós-gol:



Post da internet
Anônimo
                                                                            

Para não me chamarem de ingênua – podem chamar, o que é que tem? –, posso, ao mesmo tempo, ironizar aquele chute. Nós também fazemos autocrítica e até nos xingamos como nenhum outro povo é capaz. 

Durante a continuação do jogo, aquela paz - com a qual Marcelo jogava como se nada de grave tivesse acontecido - combinava com a reação dos torcedores nas arquibancadas, dos telespectadores, como também com a postura dos comentaristas quando nenhum deles jogou a primeira pedra na cara do Marcelo. A segunda pedra ficou lá mesmo no meio caminho. A série de pedradas não se desenrolou. E pensarmos que não seria da ordem da impossibilidade: qualquer um poderia, com todo o vigor de que o cinismo nos faz capaz, justificar os xingamentos contra o autor do despropósito daquela doação. 

Impossível não ouvir o eco dos anos 70 na voz da bela atriz Kate Lira, repetindo, com seu sotaque da América do Norte, aquele famoso bordão no programa Planeta dos Homens: 

                                                     “Brasileiro é tão bonzinho”. 




https://www.youtube.com/watch?v=HQ6ovbDQk_8


Cliquei outra imagem espetacular: a do lance malemolente de Fred, mimética à descrição da malandragem como um jeito brasileiro de se virar na vida, sustentada pela ética de tirar vantagem em qualquer situação. 

Cliquei o seu despencar no tempo preciso, focando a precipitação do ato ao intuir o toque do adversário e, ao mesmo tempo, sacando, pelo terceiro olho, o ponto de fuga do olhar do árbitro. Fred apostou naquilo que desferiu com seu golpe de vista, tendo em vista que o japonês só poderia deduzir pela falta, marcando o pênalti, porque no seu repertório cultural não tem uma chave simbólica para a leitura da malandragem. 

Como se escreve malícia no Japão? A queda frediana (frediana mesmo) jogou por terra a imagem do juiz como a verdadeira encarnação da lei. 
Pedro Malas-artes tem seguidores. 
Akira Kurosawa também tem.
E Nikola Tesla?


Post da internet
Anônimo
                                                                                                

                                                        
O Oscar para Oscar
Haveria de haver pelo menos um para desmentir todos os clichês familiares e futebolísticos. Os repórteres perguntaram o óbvio: "Ofereceu aquele gol à sua filha, Júlia, que acabou de nascer?" 
Oscar respondeu para além de um Claro, como não!? 
"...Pensei... foi... na minha mulher, pelo dia dos namorados, né?". Cinematográfico.


Post da internet
Anônimo

Neymar Neymar Neymar
Parece que sabes amar
Do lado esquerdo da grama 
Viraste
Mais ao centro 
A driblar Camisa 10 
à direita
Pensas na Bruna um tiquinho 
E voltas de novo a cruzar 


Post da internet A
Anônimo



Na verdade, o Brasil fez 4 gols. Fez os seus próprios e aquele que deu de presente ao time com quem brincava. Não poderíamos sair invictos dessa COPA. Estamos em casa e merecemos (?) a fama de não haver outro povo igual na arte de receber um estrangeiro. Há quem defende a ideia de que um brasileiro que se preza oferece a própria cama e vai dormir na sala, ou em qualquer cômodo, se em sua casa não tiver quarto de hóspede. 


Viva o POVO brasileiro!
João Ubaldo nos convoca!


Post da internet
Vivo à procura da autoria deste belo Grafite.


Para finalizar esse meu jogo no campo das "palavras aladas", como escreve Homero, 
Aclamo:  
O chute do século XXI. 
e Proclamo:
Quem viver jogará.


Post da internet
Anônimo


Vale a pena ouvir de novo:
http://www.portal2014.org.br/noticias/6796/CANAL+100+O+FUTEBOL+NO+CINEMA.html



CANTO AOS MORTOS


Os irmãos Sono e Morte
 John William Waterhouse - Pintor inglês



Quero prestar minha homenagem aos mortos de todos os tempos. A motivação é antiga. O ímpeto atual saiu no susto, pelos desaparecimentos repetidos de amigos e parentes e de protagonistas da nossa vida pública, sejam artistas, políticos, cientistas, escritores, e muitos muitos mais.

Neste ano de 2014, a Morte veio reafirmar seu compromisso com o real. É verdade que todos morreremos.
Será?

Que será será? 
aquilo que for, será.
O futuro não se vê.
O que for, será.

https://www.youtube.com/watch?v=xZbKHDPPrrc


Todas as vezes quando ouvimos a notícia da morte de alguém, a nossa reação é, na maioria dos casos, de espanto. Espanto carregado de incredulidade, como se aquilo não estivesse no roteiro dos viventes. Não conheço quem se acostumou com essa invenção de morte. Há os indiferentes, despreocupados, que afirmam não pensar nisso. Meu pai era um deles, dizia mais ou menos assim, quando se falava em preocupações com a morte: "Não pedi pra vir, quanto menos para ir". Fazia-se de morto? Meu pai era um brincante. Perto dele eu me sentia protegida, como se ao seu lado não houvesse perigo de morte.

Quando Marcelo, meu irmão, com 5 anos, morreu no colo da minha mãe, nosso pai estava a 600 km de distância. Eu tinha 12 anos e não sabia se eu chorava a perda do irmão, aquele moreno lindo que eu ajudava a cuidar com banhos às gritarias... ou se chorava a dor da perda daquela mãe que se dizia inconsolável. 
Em algum lugar deste blog 

http://numaciro.blogspot.com.br/2016/02/segunda-parceria.html,

encontraremos o poema Mulher Chorando, musicado por Flaviola, inspirado no Quadro de Portinari, daí o nome do poema. Vejo nesta pintura, o nosso retrato: eu e minha mãe. Reconheço-me: braços tentando agarrar sua cintura; a cabeça para o alto tentando alcançar o seu rosto; é sim o mesmo-meu-olhar- suspenso no vazio dos olhos dela, que só pensava nele, naquela criança tão linda, registrada com a COR MORENA. Tenho comigo o seu registro. Aquela criança agigantou-se a ponto de não ser mais alcançável pois tomou todos os lugares da casa, da rua, da cidade, dos cinemas, de qualquer diversão. Pagamos muito caro pela felicidade de termos vivido com ele até ali. É melhor não ter tido? Vale a pena a dor da perda? Há escolha?

Achei na internet sem o nome do autor.
Quem souber peço que me diga.




Lembrei-me de duas cartas de Freud, uma para Oscar Pfister e a outra para Ferencsi, através das quais ele fala sobre a morte de sua filha Sofia, em 1921, ainda sob os destroços da primeira guerra. Tomarei a liberdade para publicar alguns trechos das duas cartas. A psicanálise entrou na minha vida quando fui flechada pelo pensamento de Freud bem no centro do meu desespero, perdida entre: há vida? se há, há de haver amorte. A minha morte. A morte do outro me destrói porque a sua morte cria o meu próprio desaparecimento: para os olhos que se fecharam, quem serei a partir desse agora? A minha vida valeria o desejo de minha mãe viver?




Viena IX, Berggasse 19, 27.1.1920

Caro Pfister, 

(…) naquela tarde recebemos a notícia de que a nossa doce Sofia, em Hamburgo, havia sido arrebatada por pneumonia gripal, arrebatada em meio a uma saúde fulgurante, de uma vida cheia e ativa de mãe competente e esposa amante, tudo em 4 ou 5 dias, como se nunca tivesse existido. Embora tivéssemos estado preocupados com ela desde alguns dias antes, tivemos esperança: é tão difícil avaliar a distância. E essa distância teve que permanecer distância; não pudemos viajar logo, como pretendêramos, depois da primeira notícia alarmante; não havia trem, nem mesmo para crianças. A indisfarçada brutalidade do nosso tempo está pesando demais sobre nós. Amanhã, ela deverá ser cremada, nossa pobre menina de domingo! Nossa filha Mathilde e seu marido vão para Hamburgo depois de amanhã, graças a uma conexão inesperada com um trem da Entende; pelo menos nosso genro não ficou sozinho, dois dos nossos filhos que estavam em Berlim já estão com ele e o nosso amigo Eitingon foi com eles.

Sofia deixa dois filhos, um de 6 anos e outro de 13 meses, e um marido inconsolável que terá que pagar caro pela felicidade destes sete anos. A felicidade existiu exclusivamente dentro deles; por fora havia guerra, convocações, feridas, e esgotamento dos seus recursos, mas eles permaneceram corajosos e alegres.

Trabalho como posso e sou grato pela distração. A perda de uma filha parece um ferimento sério e narcisístico; o que se conhece como luto provavelmente só virá mais tarde. (…) 

Seu 
Freud
























Carta a Sandor Ferencsi

Viena IX, Bergasse 19, 4.2.1920

Caro Amigo,

Por favor, não se preocupe comigo. À parte um pouco mais de cansaço, sou o mesmo. A morte, dolorosa como é, não afeta minha atitude frente à vida. Durante vários anos fui preparado para a perda dos nossos filhos, e agora é a nossa filha; descrente inveterado, não tenho ningém a quem acusar, e compreendo que não há lugar onde eu pudesse apresentar queixa. "A hora do dever, sempre igual e que ainda volta" (Piccolomini - Schiller), e "O caro e lindo hábito de viver" (Egmond - Goethe) farão sua parte para deixar tudo prosseguir como antes. Lá no fundo sinto um ferimento narcisista amargo e irreparável. Minha esposa e Aninha estão profundamente afetadas de um modo mais humano. 
(...)
Seu
Freud





Numa carta posterior a Ferencsi, em 16.9.1930, Freud agradece-lhe

pelas suas belas palavras por ocasião da morte de minha mãe. Este grande acontecimento afetou-me de maneira singular. Nenhuma dor, nenhum pesar, o que provavelmente pode ser explicado pelas circunstância especiais: sua idade avançada, minha pena pela sua impotência no final; e ao mesmo tempo um sentimento de libertação, de alívio, que acho que também compreendo. Eu não tinha liberdade de morrer enquanto ela estivesse viva, e agora eu tenho. (...)






Desejamos a imortalidade e formulamos artifícios para consegui-la. Esquecer que a morte existe é um modo de sentir eternidade. Não há limites palpáveis ou claros para delimitar a zona do imaginário... assim, até a morte chegar... podemos sonhar à vontade, dormindo ou acordados.

 Dona Canô e Niemeyer eram pessoas que não poderiam morrer de jeito nenhum. Ela e ele eram provas vivas do erro que procuramos no axioma: "Todo homem é mortal".  Nem todo homem é mortal. É só pensar em Dona Canô e em Niemeyer para sair de casa ou dormir tranquilo. Todos os brasileiros eram aliados e pertenciam ao time, ao fã clube destas duas figuras queridas e respeitadas na proporção em que sustentavam o tempo da velhice e davam a volta por cima de quaisquer convenções, caretices ou meras ideologias. Sabe? eles souberam viver os anos que lhes foram dados. Assim nos parece. Por isso o tínhamos como semblantes do ideal. No entanto a descrença insistente na morte do homem  é assustadoramente eterna. Não, eles não morreram. A ideia que a palavra ressurreição transporta nos abre verdadeiramente a porta para uma eternidade sem retorno.

Niemeyer projeta-se no espaço sideral com 104 anos no dia 5/12/2012.

Dona Canô nos desmente e nos consola aos 105 anos no dia 25/12/2012  DIA de NATAL. Seu filho tem a quem puxar:

Com fé em Deus,  eu não vou morrer tão cedo. 
Canta Caetano Veloso em Araça Azul.

Ouçam essa lindeza

https://www.youtube.com/watch?v=Nr0hrhEt9Yo&index=10&list=PLcIx3EFex3qxSdej3eRFm04QOHglt83c4

Fechamos o ano de 2013 e abrimos 2014 com a passagem do poeta e galerista Franco Terranova, amado por colecionadores e artistas. Em 5 de Abril, o teatro, o cinema e a televisão, fãs e admiradores perdemos José Wilker. Por falar em ator, nestes últimos dias... foram-se Robin Williams e a atriz Lauren Bacall. Somente no mês de Julho, a Academia Brasileira de Letras acordou com três cadeiras vazias: dia 3, Ivan Junqueira; dia 18, João Ubaldo. No dia 23, quando anunciaram a morte de Ariano Suassuna, Paloma Amado começou a sua crônica escrevendo: "Agora chega": 

Nesta semana, no dia 13 de Agosto, manhã de Quarta-feira, vimos horrorizados uma das faces da morte inesperada, através do acidente inexplicável de avião por conta do qual sucumbiram Eduardo Campos, candidato à presidência e aqueles que estavam em sua companhia: o fotógrafo Alexandre da Silva; o assessor Carlos Augusto Leal Filho (Percol); os pilotos Geraldo da Cunha e Marcos Martins; Pedro Valadares Neto e Marcelo Lira. Nessa mesma noite daquela Quarta-feira 13, morreu o historiador Nicolau Sevcenko, em sua casa, de infarto.

E aqueles, cuja morte não sai no jornal? face a Face? 





Frente e verso da capa do disco -  Sobrevivendo no Inferno
Racionais Mcs

Desnaturando as mortes ditas "naturais", debaixo do mesmo céu, em diferentes CEPs, outras formas de morte, por armas de fogo, aniquilam com a vida de 50.000 jovens, todos os anos, em sua maioria negros. Alguns pouquíssimos assassinatos, entre estes milhares de casos, sequer são elucidados. Ainda podemos contabilizar um número ainda menor de vítimas no âmbito da violência urbana que chega ao conhecimento do público com nome e sobrenome, como vimos nos exemplos dos que se tornaram famosos como Gambá, o dançarino aclamado do Passinho; Amarildo, o pedreiro da Rocinha; DG, dançarino do programa Esquenta, da Rede Globo.  

Achei na internet AHHHHHHHH
paixonei

Quando estávamos morando em Lisboa, em 2012, sofremos dolorosas perda de pessoas queridas uma em seguida à outra. No início de março, a nossa querida Amara Rocha, pesquisadora do PACC e uma das coordenadoras das Quebradas - UFRJ, com quem mantinha amizade alegre e parceria intelectual. Logo em seguida, Ericson Pires, do Coletivo Musical Hapax, performer e professor de Literatura. Cantei com o Hapax, que contavam também com o som de dois amoladores de faca, a convite de Eriscon, em um evento em homenagem a Haroldo de Campos, no MAM. Cantei Circulador de Fulô, trecho do poema Galáxias de Haroldo de Campos que Caetano musicou e imortalizou no disco CIRCULADÔ.

Em abril, Gilberto Velho o reconhecido antropólogo brasileiro recebeu homenagens póstumas em Portugal nos Centros Acadêmicos de Ciências Sociais. 



Foto retirada da internet 
Nucleo de memória da PUC

Os deuses do acaso dão, a quem nada
lhes pediu, o que um dia levam embora;
e se não foi pedida a coisa dada
não cabe se queixar da perda agora.
Mas não ter tido nunca nada, não
seria bem melhor — ou menos mau?
Mesmo sabendo que uma solidão
completa era o capítulo final,
a anestesia valeria o preço?
(Rememorar o que não foi não dá
em nada. É como enxergar um começo
no que não pode ser senão o fim.
Ontem foi ontem. Amanhã não há.
Hoje é só hoje. Os deuses são assim.)

Paulo Henriques Britto



Nossa querida Santuza Cambraia Naves também foi levada pelos deuses em abril de 2012 e eu me despedi em solidão. Profunda e amorosa conhecedora da música popular brasileira, SANTUZA deixou obras importantes para estudiosos ou quem quer que se interesse pela teoria e história da nossa música. Nós brincávamos com o fato de sermos admiradoras incondicionais de Caetano Veloso e em todas as festas ela cantava Tigresa. Eu não estava aqui quando lhe prestaram uma bela homenagem na PUC. Sempre pensei que chegaria o momento em que faria a minha homenagem. E sim dediquei a Santuza! o Monólogo Cantante A Peleja da Voz com a Língua - A SAUDADE, que estreou no dia 24 de Setembro, no Itaú Cultural de São Paulo. 



Edição póstuma 
pertence à coletânea Modernismo +90



A preciosidade deste livro vai além do cunho informativo, o que por si já nos causaria interesse. O meu guia de leitura foi o título: que prazer vê-lo desenrolar-se da capa e ressoar em cada página. Há um Brasil belo, belo de tão inteligente, genial, simples, fogoso, brincante andarilho inventado pela nossa música. SANTUZA leva a nossa escuta e o nosso olhar para esse ponto de beleza para o qual ela mira e acerta naquilo que realmente interessa. Desejar-se próximo da coisa da ARTE.

SANTUZA é minha mestra. Deu-me a surpresa - prazer e orgulho - por ela ter escolhido o meu trabalho artístico como objeto de seus estudos e apresentou suas reflexões a respeito no Seminário Mulheres nas Artes, na Casa Rui Barbosa. Foi uma aula espetáculo no qual ela falava e eu cantava. Para quem se interessar por este assunto, há  um artigo de Santuza Numa Ciro, a persona, é só linkar:

http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs/index.php/letras/article/view/25275

Na noite de 30 de Julho de 2009, na Casa do Saber, aqui no Rio de Janeiro, apresentei o monólogo/performance Numa Noite na Casa do Saber, com roteiro e direção de Numa / Ana Luiza Martins Costa e figurino de Hildebrando de Castro. Depois da apresentação performática, eu, Santuza e Ana Luiza engendramos uma conversa sobre o canto à capela e as implicações artísticas dessa escolha, assim como a invenção da persona. 

Santuza, minha gratidão e respeito.




Nesta semana, a convite do antropólogo Mércio Gomes Pereira, viajou para o Alto Xingu nosso amigo Paul Heritage.  Estaria com eles se não tivesse passado recentemente pela cirurgia da coluna. Paul é professor de Artes Cênicas e Performance no Queen Mary University of London, pesquisador associado da Royal Society of the Arts e diretor do People’s Palace Projects. Vive na ponte Brasil - Inglaterra, levando e trazendo arte e pesquisa de lá pra cá / de cá pra lá. Na internet você podem encontrar os feitos do Paul andante pelas veredas da cultura brasileira de todas as regiões. Quem quiser saber um pouco mais sobre este inglês que deu seu nome a uma sala de teatro na prisão de segurança máxima de Brasília, é só clicar.




Paul está oferecendo apoio intelectual e logístico, como se diz agora, ao ator britânico Simon McBurney, também diretor do Theàtré Complicité. Simon está em processo de criação de uma peça teatral abordando a cultura indígena brasileira no Alto Xingu.   
Mércio, nosso amigo e vizinho, com delicadeza nos fez o convite para IRMOS à Aldeia dos Awalapiti  assistir o Kuarup, uma das cerimônias mais belas que uma sociedade é capaz de criar em homenagem aos mortos. Ao ler e, depois, ao ouvir a narrativa de Mércio, como etnólogo e como gente, sobre o KUARUP, fez crescer a minha admiração profunda pela expressão estética daquele acontecimento. A beleza parece que auxilia, se oferece como o fio que conduz as manifestações imaginárias da morte no sentido de se fazer a elaboração simbólica daquilo que se apresenta do lado do real e nos mostra onde somos incapazes de controlar.


Imagens do Kuarup tiradas da internet

Este ritual de louvor e pranto, lutas e cantos, brigas e dança para cultuar seus mortos: O Kuarup parece que existe para dizer-nos que o homem pensa. Ele pensa na morte. Não importa se acredita ou não. A vida é a travessia do corpo travessado pela morte. 

Foto retirada da internet



Estas duas fotos acima são dos troncos de árvores, trazidos da mata e preparados para representarem o morto, ao pé do qual os parentes vão chorar e fazer a despedida final. Afinal, são tantos troncos quantos forem os que morreram ao longo daquele ano. A festa é incrível. Teatro catártico, lágrimas que lavam a alma, expressão máxima do enfrentamento entre as duas imagens: a da vida em oposição à morte. Nunca lá fui, mas quando penso na festa do KUARUP, imagino um Dioniso boquiaberto estatelado sem saber como ele foi parar ali. 




Mestre vitalino
Casa Museu do Pontal 

E eu? como vim parar aqui? Vitalino é a assinatura do meu umbigo. Por isso que eu gosto de olhar para meu umbigo. Olhando bem, um dia vi que tinha barro no meu umbigo. Finquei a cara a procurar barro. Encontrei pelo caminho sanfonas, zabumbas, clarinetas, cornetas, piano, violão, viola e rabeca. Era só festa. E conheci sem sofrer, as Incelênças: realistas, simbolistas, modernistas, materialistas: era uma reza rica, reza a lenda. 



Cena do Cortejo Fúnebre em SONHOS - Kurosawa


As Incelenças, Incelências ou Excelências são Cantigas de Guarda, de Sentinela ou Benditos de defuntos, formas musicais da tradição do Nordeste brasileiro, herdadas da cultura ibérica peninsular. Cânticos entoados à cabeceira do moribundo e também dirigidos ao defunto, recomendando seu corpo (quando cada parte do corpo é lembrado) e ajudando-o a ir para um bom lugar. Como nordestina, senti-me no dever e tive desejo de cantar meus louvores aos que foram antes de mim. Escrevi esta letra musicada por Flaviola, músico pernambucano de quem sou admiradora e parceira em muitas canções e galopes. 

João Tomé, meu pai, meu lado cientifícil e arnárquico; Aída, minha mãe, meu lado creacionírico; Marcelo, meu irmão, tão pequeno e nos ensinou a força que jaz no impossível. Nega Zefa, me nutria com  Leiteratura. Avós, tios e primos queridos. Todos me iludiram. Meu tio Israel que também partiu neste mês de agosto, aos noventa. Sua filha Rossana, minha prima, lhe proporcionou o que todos desejam: uma boa morte. Saiu de casa para o cemitério. Ele representa uma das fontes do que sentia como felicidade, vinda, dada pelos adultos, quando era criança. Homem manso. Minha tia madrinha Ana escolheu aquele homem para casar e agradou a todo mundo quando o trouxe para a nossa convivência. São tempos que se foram com ele. Felizes. 


O retorno - Samico
Artista pernambucano, artífice junto com Ariano Suassuna do Movimento Armorial
Recife, 15 de junho de 1928 – 25 de novembro de 2013



Excelência

                                                                          Flávio de LiraNuma Ciro



Finadas horas
quem nos deixou aqui no nosso firmamento
será velado 
com todo amorrezachorocantos e lamento

O silêncio grita na sua voz
calada voz não diz amém
sempre que a reza recomendar
sua travessia rumo além

Excelência!
encontre a paz
pelos reinos do sumiço
A saudade leva e traz ilusões de paraíso

Excelência!
encontre o tempo 
distraído eternamente
no altar do esquecimento
consagrar

Queixolábiosolhosnariz
ossosórgãossangue 
pelos e as mãos 
Li ri ri ri ri ri ri

Excelêncianestas flores
os adornos do tormento
a moldura do seu vulto,
vida e morte num momento

Excelênciaa luz das velas
representa luz divina
nosso choro embeleza
sua alma ilumina

Finadas horas

quem nos deixou aqui no nosso firmamento
será lembrado
com todo amor, riso e choro, cantos e lamento

Derlon Almeida 
Artista pernambucano

Nova geração

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