quarta-feira, 15 de julho de 2015

CARTA DE UMA LEITORA


Adversativas admitem Adversidades



Encontrada na internet


A coluna do Segundo Caderno, O Globo, sexta-feira, 16.1.2015, foi nomeada pelo seu autor de “AS ADVERSATIVAS”. Não apenas reconheci meus pensamentos através das reflexões desenvolvidas no texto… também senti o impulso de escrever junto, apropriar-me da temática escolhida por Arthur Dapieve e soltar as palavras. A brecha que encontrei para deixar fluir minhas ideias e reflexões sobre o tema da coluna foi escrever uma carta. Demorô. Nunca enviei nenhuma carta para revistas ou jornais. Contive-me, inédita, como leitora ou fã até esta data. Tenho muitas cartas engavetadas e arquivadas.

Mandei a carta por meio do correio eletrônico. NO ENTANTO só a enviei no sábado. Dormi com a carta guardada  MAS acordei desduvidosa.   












Resumi o texto no formato de uma missiva, embora Sílvia, minha amada, ter dito, mais ou menos assim, que isso não é tamanho de carta para se enviar a um colunista. Acho que talvez neste caso ele nem vai ler, dada a quantidade de correspondências que devem povoar sua caixa virtual. MAS Lacan vem em meu Socorro e diz: "c’est qu’une lettre arrive toujours à destination" ou “Uma carta sempre chega ao seu destino”. Escritos, pag. 45. 

Outro destino ao qual estou dando o meu texto é postar a carta para os supostos leitores deste blog:

Prezado Arthur Dapieve

Leitora de sua coluna, senti-me cutucada pelas adversativas que surgiram em sua reflexão de hoje sobre as adversidades causadas pelos atos criminosos de quem se sente no direito de cometê-los, baseado em “verdades” religiosas, ideológicas ou coisa que os valha. 

Lembrei-me que participei de um seminário – acadêmico mesclado com militância - há mais de 15 anos sobre preconceito e racismo. Um conferencista (desculpe, perdi as referências do autor e da tese) falou da sua pesquisa em linguística exatamente sobre o emprego das conjunções adversativas quando as pessoas, mesmo sem se darem conta, se referem aos afrodescendentes. Um amigo negro (entre os raríssimos que moravam em Ipanema e frequentavam escola na Zona Sul) refletindo sobre isto, compreendeu porque, quando era criança, as mães (todas brancas) dos seus amigos se admiravam tanto “por este menino ser tão educado”. O subtendido: “É negro mas… não parece”. Os exemplos das mais variadas formas com que as adversativas são usadas no caso do racismo são surpreendentes.




Foi em 2004? Aquela campanha “Onde você guarda o seu racismo” nos levou a desvelar na fala e nos costumes corriqueiros contradições inesperadas em relação ao racismo, aos preconceitos em geral, às manipulações de políticas moralistas.
Retomando a sua citação de George Orwell, “um Estado totalitário é na realidade uma teocracia”, lembrei-me do episódio que envolveu o cantor da nossa MPB que acreditou no epíteto de rei que seus fãs (súditos?) lhe deram. Do alto do seu trono, mandou o seguinte telegrama majestático para o presidente José Sarnei:

“Cumprimento Vossa Excelência por impedir a exibição do filme Je Vous Salue Marie, que não é obra de arte ou expressão cultural que mereça a liberdade de atingir a tradição religiosa de nosso povo e o sentimento cristão da humanidade. Deus abençoe Vossa Excelência. 
Roberto Carlos Braga.''

Não falou, MAS mandou a liberdade de expressão, a democracia recém inaugurada, o direito dos ateus e laicos de produzirem seus trabalhos de acordo com sua posição fora dos cânones religiosos, mandou tudo pro inferno. INFERNO? "De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar"? Se... tudo não estiver como eu quero? Não é assim que pensa um rei?

Quem leu aquele telegrama na época, não se surpreendeu quando o rei julgou a biografia "Roberto Carlos em detalhes", escrita pelo historiador Paulo Cesar de Araujo, um crime de lesa majestade. No seu livro O Réu e o Rei, o pesquisador conta em detalhes as adversidades pelas quais passou com o processo na esfera criminal impetrado pelo seu biografado, o qual um dia já foi, que ironia, ídolo da “jovem guarda”. Não imaginamos na época que a guarda iria se deslocar de sua bela referência à vanguarda, para servir de guarda aos "bons" costumes e à moral religiosa. O processo contra o escritor e a editora que culminou na proibição do livro não se constitui como um exemplo do cruzamento do culto à personalidade com o poder teocrático?


Um abraço,

Numa Ciro





Dias depois:

E não é que Arthur Dapieve gentilmente me respondeu?




Nenhum comentário:

Postar um comentário