Os irmãos Sono e Morte
John William Waterhouse - Pintor inglês
Quero prestar minha homenagem aos mortos de todos os tempos. A motivação é antiga. O ímpeto atual saiu no susto, pelos desaparecimentos repetidos de amigos e parentes e de protagonistas da nossa vida pública, sejam artistas, políticos, cientistas, escritores, e muitos muitos mais.
Neste ano de 2014, a Morte veio reafirmar seu compromisso com o real. É verdade que todos morreremos.
Será?
https://www.youtube.com/watch?v=xZbKHDPPrrc
Todas as vezes quando ouvimos a notícia da morte de alguém, a nossa reação é, na maioria dos casos, de espanto. Espanto carregado de incredulidade, como se aquilo não estivesse no roteiro dos viventes. Não conheço quem se acostumou com essa invenção de morte. Há os indiferentes, despreocupados, que afirmam não pensar nisso. Meu pai era um deles, dizia mais ou menos assim, quando se falava em preocupações com a morte: "Não pedi pra vir, quanto menos para ir". Fazia-se de morto? Meu pai era um brincante. Perto dele eu me sentia protegida, como se ao seu lado não houvesse perigo de morte.
Quando Marcelo, meu irmão, com 5 anos, morreu no colo da minha mãe, nosso pai estava a 600 km de distância. Eu tinha 12 anos e não sabia se eu chorava a perda do irmão, aquele moreno lindo que eu ajudava a cuidar com banhos às gritarias... ou se chorava a dor da perda daquela mãe que se dizia inconsolável.
Será?
Que será será?
aquilo que for, será.
O futuro não se vê.
O que for, será.
https://www.youtube.com/watch?v=xZbKHDPPrrc
Todas as vezes quando ouvimos a notícia da morte de alguém, a nossa reação é, na maioria dos casos, de espanto. Espanto carregado de incredulidade, como se aquilo não estivesse no roteiro dos viventes. Não conheço quem se acostumou com essa invenção de morte. Há os indiferentes, despreocupados, que afirmam não pensar nisso. Meu pai era um deles, dizia mais ou menos assim, quando se falava em preocupações com a morte: "Não pedi pra vir, quanto menos para ir". Fazia-se de morto? Meu pai era um brincante. Perto dele eu me sentia protegida, como se ao seu lado não houvesse perigo de morte.
Quando Marcelo, meu irmão, com 5 anos, morreu no colo da minha mãe, nosso pai estava a 600 km de distância. Eu tinha 12 anos e não sabia se eu chorava a perda do irmão, aquele moreno lindo que eu ajudava a cuidar com banhos às gritarias... ou se chorava a dor da perda daquela mãe que se dizia inconsolável.
Em algum lugar deste blog
http://numaciro.blogspot.com.br/2016/02/segunda-parceria.html,
encontraremos o poema Mulher Chorando, musicado por Flaviola, inspirado no Quadro de Portinari, daí o nome do poema. Vejo nesta pintura, o nosso retrato: eu e minha mãe. Reconheço-me: braços tentando agarrar sua cintura; a cabeça para o alto tentando alcançar o seu rosto; é sim o mesmo-meu-olhar- suspenso no vazio dos olhos dela, que só pensava nele, naquela criança tão linda, registrada com a COR MORENA. Tenho comigo o seu registro. Aquela criança agigantou-se a ponto de não ser mais alcançável pois tomou todos os lugares da casa, da rua, da cidade, dos cinemas, de qualquer diversão. Pagamos muito caro pela felicidade de termos vivido com ele até ali. É melhor não ter tido? Vale a pena a dor da perda? Há escolha?
Lembrei-me de duas cartas de Freud, uma para Oscar Pfister e a outra para Ferencsi, através das quais ele fala sobre a morte de sua filha Sofia, em 1921, ainda sob os destroços da primeira guerra. Tomarei a liberdade para publicar alguns trechos das duas cartas. A psicanálise entrou na minha vida quando fui flechada pelo pensamento de Freud bem no centro do meu desespero, perdida entre: há vida? se há, há de haver amorte. A minha morte. A morte do outro me destrói porque a sua morte cria o meu próprio desaparecimento: para os olhos que se fecharam, quem serei a partir desse agora? A minha vida valeria o desejo de minha mãe viver?
Por favor, não se preocupe comigo. À parte um pouco mais de cansaço, sou o mesmo. A morte, dolorosa como é, não afeta minha atitude frente à vida. Durante vários anos fui preparado para a perda dos nossos filhos, e agora é a nossa filha; descrente inveterado, não tenho ningém a quem acusar, e compreendo que não há lugar onde eu pudesse apresentar queixa. "A hora do dever, sempre igual e que ainda volta" (Piccolomini - Schiller), e "O caro e lindo hábito de viver" (Egmond - Goethe) farão sua parte para deixar tudo prosseguir como antes. Lá no fundo sinto um ferimento narcisista amargo e irreparável. Minha esposa e Aninha estão profundamente afetadas de um modo mais humano. http://numaciro.blogspot.com.br/2016/02/segunda-parceria.html,
encontraremos o poema Mulher Chorando, musicado por Flaviola, inspirado no Quadro de Portinari, daí o nome do poema. Vejo nesta pintura, o nosso retrato: eu e minha mãe. Reconheço-me: braços tentando agarrar sua cintura; a cabeça para o alto tentando alcançar o seu rosto; é sim o mesmo-meu-olhar- suspenso no vazio dos olhos dela, que só pensava nele, naquela criança tão linda, registrada com a COR MORENA. Tenho comigo o seu registro. Aquela criança agigantou-se a ponto de não ser mais alcançável pois tomou todos os lugares da casa, da rua, da cidade, dos cinemas, de qualquer diversão. Pagamos muito caro pela felicidade de termos vivido com ele até ali. É melhor não ter tido? Vale a pena a dor da perda? Há escolha?
Achei na internet sem o nome do autor.
Quem souber peço que me diga.
Lembrei-me de duas cartas de Freud, uma para Oscar Pfister e a outra para Ferencsi, através das quais ele fala sobre a morte de sua filha Sofia, em 1921, ainda sob os destroços da primeira guerra. Tomarei a liberdade para publicar alguns trechos das duas cartas. A psicanálise entrou na minha vida quando fui flechada pelo pensamento de Freud bem no centro do meu desespero, perdida entre: há vida? se há, há de haver amorte. A minha morte. A morte do outro me destrói porque a sua morte cria o meu próprio desaparecimento: para os olhos que se fecharam, quem serei a partir desse agora? A minha vida valeria o desejo de minha mãe viver?
Viena IX, Berggasse 19, 27.1.1920
Caro Pfister,
(…) naquela tarde recebemos a notícia de que a nossa doce Sofia, em Hamburgo, havia sido arrebatada por pneumonia gripal, arrebatada em meio a uma saúde fulgurante, de uma vida cheia e ativa de mãe competente e esposa amante, tudo em 4 ou 5 dias, como se nunca tivesse existido. Embora tivéssemos estado preocupados com ela desde alguns dias antes, tivemos esperança: é tão difícil avaliar a distância. E essa distância teve que permanecer distância; não pudemos viajar logo, como pretendêramos, depois da primeira notícia alarmante; não havia trem, nem mesmo para crianças. A indisfarçada brutalidade do nosso tempo está pesando demais sobre nós. Amanhã, ela deverá ser cremada, nossa pobre menina de domingo! Nossa filha Mathilde e seu marido vão para Hamburgo depois de amanhã, graças a uma conexão inesperada com um trem da Entende; pelo menos nosso genro não ficou sozinho, dois dos nossos filhos que estavam em Berlim já estão com ele e o nosso amigo Eitingon foi com eles.
Sofia deixa dois filhos, um de 6 anos e outro de 13 meses, e um marido inconsolável que terá que pagar caro pela felicidade destes sete anos. A felicidade existiu exclusivamente dentro deles; por fora havia guerra, convocações, feridas, e esgotamento dos seus recursos, mas eles permaneceram corajosos e alegres.
Trabalho como posso e sou grato pela distração. A perda de uma filha parece um ferimento sério e narcisístico; o que se conhece como luto provavelmente só virá mais tarde. (…)
Seu
Freud
Carta a Sandor Ferencsi
Viena IX, Bergasse 19, 4.2.1920
Caro Amigo,
(...)
Seu
Freud
Numa carta posterior a Ferencsi, em 16.9.1930, Freud agradece-lhe
pelas suas belas palavras por ocasião da morte de minha mãe. Este grande acontecimento afetou-me de maneira singular. Nenhuma dor, nenhum pesar, o que provavelmente pode ser explicado pelas circunstância especiais: sua idade avançada, minha pena pela sua impotência no final; e ao mesmo tempo um sentimento de libertação, de alívio, que acho que também compreendo. Eu não tinha liberdade de morrer enquanto ela estivesse viva, e agora eu tenho. (...)
Desejamos a imortalidade e formulamos artifícios para consegui-la. Esquecer que a morte existe é um modo de sentir eternidade. Não há limites palpáveis ou claros para delimitar a zona do imaginário... assim, até a morte chegar... podemos sonhar à vontade, dormindo ou acordados.
Dona Canô e Niemeyer eram pessoas que não poderiam morrer de jeito nenhum. Ela e ele eram provas vivas do erro que procuramos no axioma: "Todo homem é mortal". Nem todo homem é mortal. É só pensar em Dona Canô e em Niemeyer para sair de casa ou dormir tranquilo. Todos os brasileiros eram aliados e pertenciam ao time, ao fã clube destas duas figuras queridas e respeitadas na proporção em que sustentavam o tempo da velhice e davam a volta por cima de quaisquer convenções, caretices ou meras ideologias. Sabe? eles souberam viver os anos que lhes foram dados. Assim nos parece. Por isso o tínhamos como semblantes do ideal. No entanto a descrença insistente na morte do homem é assustadoramente eterna. Não, eles não morreram. A ideia que a palavra ressurreição transporta nos abre verdadeiramente a porta para uma eternidade sem retorno.
Niemeyer projeta-se no espaço sideral com 104 anos no dia 5/12/2012.
Dona Canô nos desmente e nos consola aos 105 anos no dia 25/12/2012 DIA de NATAL. Seu filho tem a quem puxar:
Com fé em Deus, eu não vou morrer tão cedo.
Canta Caetano Veloso em Araça Azul.
Ouçam essa lindeza
Canta Caetano Veloso em Araça Azul.
Ouçam essa lindeza
https://www.youtube.com/watch?v=Nr0hrhEt9Yo&index=10&list=PLcIx3EFex3qxSdej3eRFm04QOHglt83c4
Fechamos o ano de 2013 e abrimos 2014 com a passagem do poeta e galerista Franco Terranova, amado por colecionadores e artistas. Em 5 de Abril, o teatro, o cinema e a televisão, fãs e admiradores perdemos José Wilker. Por falar em ator, nestes últimos dias... foram-se Robin Williams e a atriz Lauren Bacall. Somente no mês de Julho, a Academia Brasileira de Letras acordou com três cadeiras vazias: dia 3, Ivan Junqueira; dia 18, João Ubaldo. No dia 23, quando anunciaram a morte de Ariano Suassuna, Paloma Amado começou a sua crônica escrevendo: "Agora chega":
Nesta semana, no dia 13 de Agosto, manhã de Quarta-feira, vimos horrorizados uma das faces da morte inesperada, através do acidente inexplicável de avião por conta do qual sucumbiram Eduardo Campos, candidato à presidência e aqueles que estavam em sua companhia: o fotógrafo Alexandre da Silva; o assessor Carlos Augusto Leal Filho (Percol); os pilotos Geraldo da Cunha e Marcos Martins; Pedro Valadares Neto e Marcelo Lira. Nessa mesma noite daquela Quarta-feira 13, morreu o historiador Nicolau Sevcenko, em sua casa, de infarto.
E aqueles, cuja morte não sai no jornal? face a Face?
Frente e verso da capa do disco - Sobrevivendo no Inferno
Racionais Mcs
Desnaturando as mortes ditas "naturais", debaixo do mesmo céu, em diferentes CEPs, outras formas de morte, por armas de fogo, aniquilam com a vida de 50.000 jovens, todos os anos, em sua maioria negros. Alguns pouquíssimos assassinatos, entre estes milhares de casos, sequer são elucidados. Ainda podemos contabilizar um número ainda menor de vítimas no âmbito da violência urbana que chega ao conhecimento do público com nome e sobrenome, como vimos nos exemplos dos que se tornaram famosos como Gambá, o dançarino aclamado do Passinho; Amarildo, o pedreiro da Rocinha; DG, dançarino do programa Esquenta, da Rede Globo.
Quando estávamos morando em Lisboa, em 2012, sofremos dolorosas perda de pessoas queridas uma em seguida à outra. No início de março, a nossa querida Amara Rocha, pesquisadora do PACC e uma das coordenadoras das Quebradas - UFRJ, com quem mantinha amizade alegre e parceria intelectual. Logo em seguida, Ericson Pires, do Coletivo Musical Hapax, performer e professor de Literatura. Cantei com o Hapax, que contavam também com o som de dois amoladores de faca, a convite de Eriscon, em um evento em homenagem a Haroldo de Campos, no MAM. Cantei Circulador de Fulô, trecho do poema Galáxias de Haroldo de Campos que Caetano musicou e imortalizou no disco CIRCULADÔ.
Em abril, Gilberto Velho o reconhecido antropólogo brasileiro recebeu homenagens póstumas em Portugal nos Centros Acadêmicos de Ciências Sociais.
Foto retirada da internet
Nucleo de memória da PUC
Os deuses do acaso dão, a quem nada
lhes pediu, o que um dia levam embora;
e se não foi pedida a coisa dada
não cabe se queixar da perda agora.
Mas não ter tido nunca nada, não
seria bem melhor — ou menos mau?
Mesmo sabendo que uma solidão
completa era o capítulo final,
a anestesia valeria o preço?
(Rememorar o que não foi não dá
em nada. É como enxergar um começo
no que não pode ser senão o fim.
Ontem foi ontem. Amanhã não há.
Hoje é só hoje. Os deuses são assim.)
Paulo Henriques Britto
Nossa querida Santuza Cambraia Naves também foi levada pelos deuses em abril de 2012 e eu me despedi em solidão. Profunda e amorosa conhecedora da música popular brasileira, SANTUZA deixou obras importantes para estudiosos ou quem quer que se interesse pela teoria e história da nossa música. Nós brincávamos com o fato de sermos admiradoras incondicionais de Caetano Veloso e em todas as festas ela cantava Tigresa. Eu não estava aqui quando lhe prestaram uma bela homenagem na PUC. Sempre pensei que chegaria o momento em que faria a minha homenagem. E sim dediquei a Santuza! o Monólogo Cantante A Peleja da Voz com a Língua - A SAUDADE, que estreou no dia 24 de Setembro, no Itaú Cultural de São Paulo.
Edição póstuma
pertence à coletânea Modernismo +90
pertence à coletânea Modernismo +90
A preciosidade deste livro vai além do cunho informativo, o que por si já nos causaria interesse. O meu guia de leitura foi o título: que prazer vê-lo desenrolar-se da capa e ressoar em cada página. Há um Brasil belo, belo de tão inteligente, genial, simples, fogoso, brincante andarilho inventado pela nossa música. SANTUZA leva a nossa escuta e o nosso olhar para esse ponto de beleza para o qual ela mira e acerta naquilo que realmente interessa. Desejar-se próximo da coisa da ARTE.
SANTUZA é minha mestra. Deu-me a surpresa - prazer e orgulho - por ela ter escolhido o meu trabalho artístico como objeto de seus estudos e apresentou suas reflexões a respeito no Seminário Mulheres nas Artes, na Casa Rui Barbosa. Foi uma aula espetáculo no qual ela falava e eu cantava. Para quem se interessar por este assunto, há um artigo de Santuza Numa Ciro, a persona, é só linkar:
http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs/index.php/letras/article/view/25275
Na noite de 30 de Julho de 2009, na Casa do Saber, aqui no Rio de Janeiro, apresentei o monólogo/performance Numa Noite na Casa do Saber, com roteiro e direção de Numa / Ana Luiza Martins Costa e figurino de Hildebrando de Castro. Depois da apresentação performática, eu, Santuza e Ana Luiza engendramos uma conversa sobre o canto à capela e as implicações artísticas dessa escolha, assim como a invenção da persona.
Santuza, minha gratidão e respeito.
Nesta semana, a convite do antropólogo Mércio Gomes Pereira, viajou para o Alto Xingu nosso amigo Paul Heritage. Estaria com eles se não tivesse passado recentemente pela cirurgia da coluna. Paul é professor de Artes Cênicas e Performance no Queen Mary University of London, pesquisador associado da Royal Society of the Arts e diretor do People’s Palace Projects. Vive na ponte Brasil - Inglaterra, levando e trazendo arte e pesquisa de lá pra cá / de cá pra lá. Na internet você podem encontrar os feitos do Paul andante pelas veredas da cultura brasileira de todas as regiões. Quem quiser saber um pouco mais sobre este inglês que deu seu nome a uma sala de teatro na prisão de segurança máxima de Brasília, é só clicar.
Paul está oferecendo apoio intelectual e logístico, como se diz agora, ao ator britânico Simon McBurney, também diretor do Theàtré Complicité. Simon está em processo de criação de uma peça teatral abordando a cultura indígena brasileira no Alto Xingu.
Paul está oferecendo apoio intelectual e logístico, como se diz agora, ao ator britânico Simon McBurney, também diretor do Theàtré Complicité. Simon está em processo de criação de uma peça teatral abordando a cultura indígena brasileira no Alto Xingu.
Mércio, nosso amigo e vizinho, com delicadeza nos fez o convite para IRMOS à Aldeia dos Awalapiti assistir o Kuarup, uma das cerimônias mais belas que uma sociedade é capaz de criar em homenagem aos mortos. Ao ler e, depois, ao ouvir a narrativa de Mércio, como etnólogo e como gente, sobre o KUARUP, fez crescer a minha admiração profunda pela expressão estética daquele acontecimento. A beleza parece que auxilia, se oferece como o fio que conduz as manifestações imaginárias da morte no sentido de se fazer a elaboração simbólica daquilo que se apresenta do lado do real e nos mostra onde somos incapazes de controlar.
Imagens do Kuarup tiradas da internet
Este ritual de louvor e pranto, lutas e cantos, brigas e dança para cultuar seus mortos: O Kuarup parece que existe para dizer-nos que o homem pensa. Ele pensa na morte. Não importa se acredita ou não. A vida é a travessia do corpo travessado pela morte.
Foto retirada da internet
Mestre vitalino
Casa Museu do Pontal
E eu? como vim parar aqui? Vitalino é a assinatura do meu umbigo. Por isso que eu gosto de olhar para meu umbigo. Olhando bem, um dia vi que tinha barro no meu umbigo. Finquei a cara a procurar barro. Encontrei pelo caminho sanfonas, zabumbas, clarinetas, cornetas, piano, violão, viola e rabeca. Era só festa. E conheci sem sofrer, as Incelênças: realistas, simbolistas, modernistas, materialistas: era uma reza rica, reza a lenda.
Cena do Cortejo Fúnebre em SONHOS - Kurosawa
João Tomé, meu pai, meu lado cientifícil e arnárquico; Aída, minha mãe, meu lado creacionírico; Marcelo, meu irmão, tão pequeno e nos ensinou a força que jaz no impossível. Nega Zefa, me nutria com Leiteratura. Avós, tios e primos queridos. Todos me iludiram. Meu tio Israel que também partiu neste mês de agosto, aos noventa. Sua filha Rossana, minha prima, lhe proporcionou o que todos desejam: uma boa morte. Saiu de casa para o cemitério. Ele representa uma das fontes do que sentia como felicidade, vinda, dada pelos adultos, quando era criança. Homem manso. Minha tia madrinha Ana escolheu aquele homem para casar e agradou a todo mundo quando o trouxe para a nossa convivência. São tempos que se foram com ele. Felizes.
O retorno - Samico
Artista pernambucano, artífice junto com Ariano Suassuna do Movimento Armorial
Recife, 15 de junho de 1928 – 25 de novembro de 2013
Excelência
Flávio de Lira/ Numa Ciro
Finadas horas!
quem nos deixou aqui no nosso firmamento
será velado
com todo amor, reza, choro, cantos e lamento
O silêncio grita na sua voz
calada voz não diz amém
sempre que a reza recomendar
sua travessia rumo além
Excelência!
encontre a paz
pelos reinos do sumiço
A saudade leva e traz ilusões de paraíso
Excelência!
encontre o tempo
distraído eternamente
e no altar do esquecimento
consagrar
Queixo, lábios, olhos, nariz
ossos, órgãos, sangue
pelos e as mãos
Li ri ri ri ri ri ri
Excelência, nestas flores
os adornos do tormento
a moldura do seu vulto,
vida e morte num momento
Excelência, a luz das velas
representa luz divina
nosso choro embeleza
sua alma ilumina
Finadas horas!
quem nos deixou aqui no nosso firmamento
Finadas horas!
quem nos deixou aqui no nosso firmamento
será lembrado
com todo amor, riso e choro, cantos e lamento
com todo amor, riso e choro, cantos e lamento
Derlon Almeida
Artista pernambucano
Nova geração
a Vida continua e a Arte imita a Vida


















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