Hildebrando de Castro
¡Para qué hemos nacido como hombres
Si nos dan una muerte de animales!
Nicanor Parra
Autorretrato
De Poemas y antipoemas,1954
Foto Hildebrando de Castro
numa BAD
Estava me sentindo como este fusca, uma raridade anos sessenta, estacionada pronta para sair, a própria fisionomia da eternidade, a planear passeios lusos, planejando encontrar novas moradias - como escreveu Hermano Vianna - para as vozes que em mim querem cantar. Eis que de repente, nem mais nem menos que de repente, as vozes, em vez de cantarem, tossiram até que arranharam o disco. As vértebras L2 e L3 brigavam entre si, cada uma tocava seu próprio disco em rotações diferentes. Hérnia, desesperada, desafiou os abusos do pleonasmo e saiu literalmente para dentro. Poispois... essa fera desenjaulada caiu no beco sem saída do canal onde se alonga a medula espinal, agarrou-se à Corda Nervosa e quis brincar de circo. Querem saber a altura do trapézio? Na altura da minha coxa esquerda. Não tive tempo nem de chamar os palhaços. Só entrava no picadeiro o homem das facas.
Braços abertos lado a lado! E as variações do coração? Pressão oscilava entre 12 e 16. O coração congava a chamar pela Nega Zefa, minha ama de leiteratura.
Braços abertos lado a lado! E as variações do coração? Pressão oscilava entre 12 e 16. O coração congava a chamar pela Nega Zefa, minha ama de leiteratura.
Hildebrando de Castro
Eis que veio o médico. Mandou fazer uma ressonância magnética. Quando entrei naquele tubo me senti a própria Barbarela.
Acreditem nisso: A imagem ressonada era o retrato do quadro clínico. Não deu noutra, deu numas captadas por ondas magnéticas... Farei uma breve estadia em um Centro Cirúrgico. Uma das possibilidades estratégicas.
Hildebrando de Castro
Deu-se início a uma sucessão de procedimentos médicos executados pela tropa de enfermeiros e enfermeiras liderada por uma enfermeira chefe, trocados a cada turno, como em todos os hospitais do mundo. Mundo? No meu braço esquerdo uma pulseira cor de laranja com a seguinte frase: sujeita a queda. No braço direito outra pulseira, nesse caso contendo uma tarja. Amarraram-me como e com um garrote e fizeram minhas veias de base para o transporte das drogas mui lícitas. A cada duas horas chegava um deles empurrando uma mesinha alta e tendo em cima um visor. Havia um leitor de tarja, de onde saíam raios de luzinha vermelha quando focado na pulseira e assim traduzia a prescrição médica daquele horário, a qual aparecia no visor como por milagre. Um dia ainda veremos as almas.
Hildebrando de Castro, 2006.
Sem aparente risco de vida, cheguei à porta da guerra: olá, Raul Solnado. A doença e a saúde fizeram meu corpo de front. Pelo menos era uma guerra pós-moderna. Lembrei daquele filme de ficção científica, Viagem Fantástica, de Richard Fleischer, 1966, com Raquel Welch.
Hildebrando de Castro
Por falar em cinema, nesses dias que passei amorfinada no Hospitalys, um hotel bélico ***** onde pelejam a saúde e a doença em suas versões ortopédicas, fui coadjuvante da protagonista de um argumento amoroso roteirizado pela minha amada Sílvia Ramos que internou-se junto comigo e deu provas de solidariedade, dedicação e daquela responsabilidade na dose certa em feições desaflitas. No Nordeste de quando eu lá morava, tinha uma expressão que usávamos para falar de uma coisa muito boa. Assim direi que o "Nosso amor é pra cinema".
Hildebrando de Castro
Na quarta-feira, 21 de maio, às 5 horas da manhã, o Dr. Paulo Ramos armado de um bisturi, entra na guerra como aliado do disco. Hérnia bate em retirada.
Fotografia de Philippe Halsman
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Ai, Fernando, que PESSOA! Corri atrás desse bichano, e o encontrei no Cancioneiro.
Os gatos… o que mais in-vejo neles não é o ser macio, não é a sua popularidade, o seu lugar na história de todos os tempos; o que mais cobiço ter o que têm os gatos é a aquela volátil Coluna Veterbral, a sambista Espinha Dorsal, o pulo! A leveza do pulo mais leve, o pulo do gato: um voo sem asas, um voo direto, sem escalas, de patas a partir do impulso sem nem perguntar porque.
A minha coluna rachou mas não desabou. Tinha uma estrutura que segurou a ocorrência que me levou à delegacia cirúrgica. Escapei, embora em prisão domiciliar, passo bem e a cada dia que passa sinto que poderei já já imitar uma gata. Sem pulos, mas com uma certa malemolência.
Postarei noutro dia, um rap que estou compondo com os nomes dos remédios que tomei, por sugestão de José Rolo.
Deixo aqui meu agradecimento aos amigos, a todos que estiveram perto de nós de diferentes formas, com alguns versos de uma letra que escrevi para a música No Reino da Pedra Verde, de Clóvis Pereira (compositor, arranjador, pianista, regente), que também participou do Movimento Armorial, nos anos 70, liderado pelo escritor Ariano Suassuna, em Recife, Pernambuco. A certa altura, digo com os versos:
Cantador que engana o tempo
venho te pedir
um favor que só se paga com a gratidão
distraindo meus sentidos
cante o que sentir
e eu sentindo a dor do verso
engano o coração.








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